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Os homens desenvolvem mais cancro e sobrevivem-lhe menos
As duas pontas da doença penalizam os homens em Portugal, e a explicação é menos biológica do que parece

Em Portugal, a incidência de cancro padronizada pela idade é de 602,6 casos por 100 000 nos homens e 423,5 nas mulheres. A sobrevivência aos cinco anos é de 62,1% neles e 71,6% nelas. São cerca de 5 100 diagnósticos a mais nos homens só em 2022.
São dois problemas distintos, com explicações distintas, e vale a pena separá-los.
Onde está a diferença na incidência
A diferença concentra-se em cancros muito associados ao tabaco e ao álcool. Pulmão: 68,2 nos homens contra 25,0 nas mulheres. Bexiga: 39,2 contra 8,1. Estômago: 29,3 contra 15,0. Cólon: 58,1 contra 34,6. Fígado: 12,1 contra 2,8.
No melanoma as taxas são praticamente iguais, e na tiróide os diagnósticos são cerca de três vezes mais frequentes nas mulheres, em parte por efeito de detecção. O padrão geral repete-se noutros países (Jackson SS et al., Cancer, 2022).
Há ainda uma diferença estrutural que se discute pouco. Dos três programas de rastreio organizados em Portugal, dois dirigem-se exclusivamente a mulheres. Isso significa que as mulheres têm, ao longo da vida adulta, contactos regulares com o sistema de saúde que os homens não têm, e é razoável colocar a hipótese de que essa diferença influencie o momento em que um sintoma é levado a uma consulta.
O que a biologia pode explicar
Vários genes supressores de tumores estão no cromossoma X, e as mulheres têm duas cópias activas onde os homens têm uma. Com a idade, muitas células masculinas perdem o cromossoma Y, alteração associada a maior risco oncológico, e o tabagismo associa-se a uma perda mais acentuada (Dunford A et al., Nature Genetics, 2017; Abdel-Hafiz HA et al., Nature, 2023).
O sistema imunitário feminino tende também a ser mais activo na vigilância de células anormais, em parte por influência hormonal, embora este seja um campo em investigação e não uma conclusão fechada (Haupt S et al., Nature Reviews Cancer, 2021).
Estas pistas têm dois limites: não se podem mudar e não explicam a diferença toda. A Agência Internacional de Investigação do Cancro estima que cerca de 45% dos cancros nos homens se associem a factores que se podem modificar, contra cerca de 30% nas mulheres.
Porque é que a sobrevivência é pior
A primeira razão é de composição dos casos. Os homens desenvolvem com mais frequência cancros de prognóstico difícil, como o pulmão e o esófago, enquanto entre as mulheres pesa muito o cancro da mama, com sobrevivência elevada. Parte da diferença de nove pontos desaparece quando se compara cancro a cancro.
A segunda tem a ver com o momento em que se procura ajuda. Os homens recorrem menos aos cuidados de saúde e tendem a apresentar-se em estádios mais avançados, um padrão descrito de forma consistente na literatura e ligado a normas sociais sobre o que se espera de um homem doente.
A terceira é o suporte social. Viver sozinho associa-se a pior sobrevivência oncológica, e essa condição é mais frequente entre homens em idades avançadas. O apoio de quem está por perto pode influenciar a adesão ao tratamento, o transporte às consultas e a detecção precoce de complicações.
Resta uma camada biológica, com diferenças na resposta a alguns tratamentos e na toxicidade, ainda em estudo.
A desigualdade em saúde também pode penalizar homens
A Irlanda aprovou em 2008 a primeira política nacional de saúde masculina do mundo. O Brasil seguiu em 2009 e a Austrália em 2010. Todas partem do mesmo diagnóstico: os comportamentos de procura de cuidados são moldados socialmente e podem ser alterados com programas dirigidos.
Cerca de metade dos cancros nos homens está associada a factores modificáveis. Isso significa que existe margem para intervir, e a experiência destes três países mostra que a intervenção começa por reconhecer o problema.
Em Portugal não existe uma política deste tipo. As campanhas dirigidas a homens têm sido pontuais e centradas sobretudo na próstata, que é precisamente o cancro com melhor prognóstico do conjunto.
O QUE FICA
- Incidência padronizada: 602,6 por 100 000 nos homens contra 423,5 nas mulheres.
- Sobrevivência aos cinco anos: 62,1% nos homens contra 71,6% nas mulheres.
- A diferença concentra-se em cancros ligados ao tabaco e ao álcool, com o pulmão à cabeça.
- Cerca de 45% dos cancros nos homens associam-se a factores modificáveis, contra 30% nas mulheres.
- A Irlanda, o Brasil e a Austrália têm políticas nacionais de saúde masculina desde 2008, 2009 e 2010.
Fontes
- Registo Oncológico Nacional 2022 · Incidência, Portugal, 2025
- Registo Oncológico Nacional · Sobrevivência 2019
- Jackson SS et al. · Cancer, 2022 · Diferenças de incidência entre sexos
- Dunford A et al. · Nature Genetics, 2017 · Genes supressores no cromossoma X
- Abdel-Hafiz HA et al. · Nature, 2023 · Perda do cromossoma Y e risco oncológico
- Haupt S et al. · Nature Reviews Cancer, 2021 · Sexo, imunidade e cancro
- Agência Internacional de Investigação do Cancro · Fracção atribuível a factores modificáveis
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