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Porque é que a Madeira sobrevive menos ao cancro?
A maior diferença regional do país não se explica pelo número de casos nem pela mortalidade, e concentra-se num grupo restrito de tumores

A sobrevivência aos cinco anos por cancro na Madeira é de 59,0%, contra 66,3% no conjunto do país. É a mais baixa das sete regiões e fica quase oito pontos abaixo da média nacional. O cálculo do Registo Oncológico Nacional está ajustado para a idade da população e envolveu 1 343 doentes na região.
Ao lado desse número aparecem outros dois que complicam a leitura. A incidência na Madeira é praticamente igual à nacional, cerca de 328 casos por 100 000 habitantes. E a mortalidade por cancro na região está a descer desde 2020, em linha com o resto do país.
Uma nota metodológica antes de avançar. O cálculo assenta em 1 343 doentes, o que é pouco quando se desagrega por tipo de tumor, e nessas condições os intervalos de confiança alargam-se. As diferenças descritas a seguir são grandes o suficiente para resistirem a essa limitação, mas o valor exacto de cada uma deve ser lido com margem.
As explicações mais imediatas não resolvem o caso
A primeira hipótese é o diagnóstico tardio. Se as pessoas chegam mais tarde aos cuidados, a sobrevivência desce mesmo com tratamento igual. A coordenadora do RON aponta a precocidade do diagnóstico e do tratamento como um dos factores principais das diferenças regionais, por isso esta hipótese explica alguma coisa. Mas não explica tudo: o maior fosso da Madeira está na leucemia linfóide, cujo tratamento é sistémico e não depende de uma cirurgia atempada.
A segunda hipótese seria estarem a aparecer mais cancros graves na região. Nesse caso a mortalidade estaria a subir, e está a descer. O sinal aponta antes para o que acontece a quem já entrou no sistema.
O fosso concentra-se em quatro tumores
Estômago: 24,9% na Madeira contra 43,3% no país. Cabeça e pescoço: 28,6% contra 50,4%. Rim: 53,6% contra 78,0%. Leucemia linfóide: 41,6% contra 75,5%.
Noutros cancros a Madeira está acima da média nacional, com destaque para o ovário e a laringe. O padrão não é de um sistema que falha em tudo, é de um sistema que falha num tipo específico de situação.
O que esses quatro tumores têm em comum
São todos cancros em que a literatura associa melhores resultados a centros com volume elevado e experiência acumulada, seja em cirurgia complexa, radioterapia técnica ou hematologia especializada. A literatura sobre centralização é consistente nesse sentido. Na Holanda, a centralização da cirurgia gástrica em 2012 foi seguida de melhoria da sobrevivência (Claassen YHM et al., Journal of Gastrointestinal Surgery, 2017). Em Itália, os hospitais de alto volume associam-se a 26% menos risco de morte aos 90 dias após cirurgia gástrica (Mantziari S et al., BJS Open, 2026). Na Suécia, a centralização entre 2006 e 2021 foi acompanhada de mais discussão multidisciplinar e de melhores resultados (Engborg J et al., Journal of Gastrointestinal Surgery, 2025).
A Madeira tem cerca de 260 mil habitantes. Para tratamentos altamente especializados, os doentes são encaminhados para o continente através do serviço regional criado para o efeito. Cada transferência acrescenta tempo, distância e pontos de fricção no percurso.
Há aqui uma tensão sem solução simples. Concentrar tratamentos complexos associa-se a melhores resultados e, ao mesmo tempo, obriga a deslocar pessoas doentes para longe da família e da sua rede de apoio, num momento em que precisam dela.
Há ainda uma camada socioeconómica
A Madeira tem o segundo maior risco de pobreza do país, 19,1%, e um dos coeficientes de Gini mais elevados (INE, 2024). A literatura internacional documenta de forma consistente sobrevivências mais baixas em regiões com maior desigualdade social, através da escolaridade, da literacia em saúde e das redes de apoio disponíveis (Niksic M et al., 2021). Esta camada pode ajudar a explicar por que motivo o fosso geral persiste, para além dos quatro tumores.
Duas ilhas, dois problemas diferentes
Vale a pena colocar a Madeira ao lado dos Açores. Os Açores têm a mortalidade mais alta do país e uma sobrevivência próxima da média, o que aponta para um problema anterior ao diagnóstico. A Madeira tem mortalidade a descer e a pior sobrevivência do país, o que aponta para um problema posterior. A insularidade penaliza as duas regiões de formas diferentes.
A Madeira diagnostica e trata. O que os dados mostram é um fosso concentrado num conjunto restrito de cancros, compatível com dificuldades no tempo até iniciar tratamento, no acesso a centros especializados e na continuidade do acompanhamento. Nenhuma destas hipóteses está testada, e é uma discussão que ainda não está a acontecer.
O QUE FICA
- A sobrevivência aos cinco anos na Madeira é de 59,0%, contra 66,3% no país, a mais baixa das sete regiões.
- A incidência é igual à nacional e a mortalidade está a descer, o que torna menos prováveis as explicações mais imediatas.
- O fosso concentra-se no estômago, cabeça e pescoço, rim e leucemia linfóide, com diferenças de 18 a 34 pontos.
- São todos cancros em que a literatura associa melhores resultados a centros de volume elevado.
- A região tem o segundo maior risco de pobreza do país, factor associado a pior sobrevivência na literatura.
Fontes
- Registo Oncológico Nacional · Sobrevivência Global 2019, publicado em Março de 2026
- Registo Oncológico Nacional 2022 · Portugal, 2025
- Instituto Nacional de Estatística · Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, 2024
- Claassen YHM et al. · Journal of Gastrointestinal Surgery, 2017 · Centralização da cirurgia gástrica na Holanda
- Mantziari S et al. · BJS Open, 2026 · Volume hospitalar e mortalidade pós-operatória em Itália
- Engborg J et al. · Journal of Gastrointestinal Surgery, 2025 · Centralização na Suécia entre 2006 e 2021
- Niksic M et al. · 2021 · Desigualdades socioeconómicas na sobrevivência ao cancro
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