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Centros oncológicos americanos vão ter de avaliar quem precisa de exercício
A partir de 2028, os centros oncológicos acreditados nos EUA terão de avaliar e oferecer encaminhamento para exercício. A norma define três níveis de apoio, mas não resolve o financiamento. E em Portugal?

Em Setembro, a Commission on Cancer, a entidade de acreditação oncológica do American College of Surgeons, aprovou a Norma 4.9. Os centros oncológicos acreditados nos Estados Unidos vão ter de avaliar cada pessoa com diagnóstico recente de cancro e oferecer encaminhamento para exercício. A entrada em vigor está prevista para 1 de Janeiro de 2028.
A acreditação é voluntária e chega à maioria das pessoas com cancro no país. Segundo o American College of Surgeons, os programas acreditados tratam mais de 74% das pessoas com diagnóstico recente de cancro nos Estados Unidos.
O que a norma exige
Cada centro tem de ter um protocolo escrito. O protocolo define o instrumento de avaliação, o momento em que é aplicado, os limiares que separam os níveis e os serviços disponíveis, no próprio centro ou fora dele.
A avaliação decorre durante o primeiro tratamento. Pode ser feita por qualquer elemento da equipa, incluindo enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e pessoal de apoio clínico. O resultado encaminha a pessoa para um de três níveis:
- Reabilitação oncológica, para sintomas e limitações mais graves, com encaminhamento feito por médicos ou outros profissionais habilitados a prescrever.
- Exercício oncológico, em programas liderados por fisioterapeutas ou profissionais de exercício certificados, presenciais ou online, em grupo ou individuais.
- Programas comunitários, fora do hospital.
Um centro sem programa de exercício próprio continua obrigado a avaliar e a oferecer encaminhamento, por exemplo para programas online ou gratuitos. Quem já é suficientemente activo pode dispensar o encaminhamento, desde que o processo clínico registe que foi incentivado a continuar.
Todos os anos, a comissão de cancro do centro revê o circuito e regista essa revisão em acta.
Os instrumentos de triagem já existem
A norma cita quatro instrumentos de triagem, desenvolvidos em três países. Um centro pode adoptar um deles ou usar o seu, desde que o escreva no protocolo.
| Instrumento | Como funciona | Fonte |
|---|---|---|
| EXCEEDS 🇺🇸 | Questionário curto que encaminha cada pessoa para reabilitação, exercício supervisionado ou exercício na comunidade. Tem uma versão online gratuita. | Covington KR et al., Supportive Care in Cancer, 2021 |
| CORE 🇺🇸 | Integrado na primeira consulta de cirurgia do cancro da mama. No estudo de viabilidade, 92,5% das doentes completaram a triagem e 62% concluíram o encaminhamento. | Simon LH et al., Cancer, 2025 |
| CREST 🇨🇦 | Rastreio de menos de cinco minutos para inactividade e limitações funcionais. Os autores indicam que ainda precisa de validação. | Capozzi LC et al., Current Oncology, 2023 |
| PERCS 🇮🇪 | Desenhado para um sistema de saúde com poucos recursos de reabilitação oncológica. No estudo de viabilidade, mais de 90% dos participantes precisavam de apoio e a maioria foi encaminhada para programas comunitários. | Brennan L et al., Journal of Cancer Survivorship, 2024 |
Como funcionou num centro
Em Pittsburgh, a equipa de Kathryn Schmitz pôs o EXCEEDS a funcionar no hospital de dia de quimioterapia. Os assistentes médicos entregavam um tablet com as perguntas na segunda sessão de tratamento, o que lhes levava dois a cinco minutos.
Das 391 pessoas que responderam, 45% aceitaram encaminhamento para exercício ou reabilitação. Num inquérito nacional da ASCO, publicado por Jennifer Ligibel e colegas em 2022, só 15% dos doentes se lembravam de ter sido encaminhados para exercício pelo oncologista.
Os dois números vêm de contextos diferentes e medem coisas diferentes. O projecto de Pittsburgh foi de melhoria de qualidade, num único centro, e a aceitação foi mais baixa entre quem foi triado para programas comunitários. Schmitz, primeira autora do estudo, liderou também a proposta da norma.
O que fica de fora
A norma não cria financiamento. Nos Estados Unidos, fora da reabilitação, os programas de exercício oncológico continuam, em regra, sem cobertura dos seguros, segundo uma revisão de Kennedy e colegas publicada em 2023 no JNCI Monographs.
Os critérios de cumprimento medem se o encaminhamento é oferecido. Quantas pessoas chegam a um programa, e quantas o completam, fica fora da avaliação.
O texto final ainda não está publicado no site da Commission on Cancer. A versão conhecida é a proposta que esteve em consulta pública em Julho e Agosto, escrita para que os centros a possam cumprir sem contratar pessoal.
Porque surge agora
As recomendações para incluir exercício nos cuidados oncológicos já existiam. O American College of Sports Medicine publicou orientações em 2019, e a ASCO e a American Cancer Society fizeram o mesmo em 2022.
Fora dos Estados Unidos, o quadro é parecido. Uma revisão publicada em 2025 no JNCI Monographs encontrou guidelines formais sobre exercício em oncologia na Austrália, no Brasil, no Canadá, na China, no Reino Unido e nos Estados Unidos, com uma em preparação na Alemanha. A maioria pede aos profissionais que falem de exercício com os doentes e os encaminhem, e só uma organização, nos Estados Unidos, tinha ido ao ponto de o tornar requisito de acreditação.
Em 2025, o ensaio CHALLENGE, publicado no New England Journal of Medicine por Kerry Courneya e colegas, mostrou que um programa estruturado de exercício reduz o risco de recidiva no cancro do cólon. Foi a primeira vez que um ensaio de fase 3 demonstrou este efeito. Em Janeiro de 2026, a ESMO passou a recomendar estes programas a quem foi operado a um cancro do cólon de estádio III ou de estádio II de alto risco.
A Norma 4.9 abrange qualquer tipo de cancro e transforma a recomendação num circuito com regras: avaliar, encaminhar, registar e rever. O trabalho para chegar aqui começou antes do ensaio. Em 2021, Kathryn Schmitz e colegas publicaram na revista Cancer uma agenda que já apontava a Commission on Cancer como um dos organismos com quem queriam definir normas.
E em Portugal
A Estratégia Nacional de Luta contra o Cancro, aprovada pelo Despacho n.º 13227/2023, inclui medidas para o exercício. Entre elas estão um guia de prescrição e um projecto piloto de consulta de actividade física, previsto até 2026 em unidades certificadas da rede de referenciação oncológica.
Para a nutrição e a psiconcologia, a mesma estratégia fixa metas específicas de cobertura até 2030. Para o exercício, não define quantas pessoas com cancro devem ser avaliadas ou encaminhadas.
A DGS já publicou um guia de consulta rápida sobre prescrição de exercício a pessoas com cancro, preparado pelos programas nacionais da actividade física e das doenças oncológicas. O passo seguinte é o circuito que leva cada pessoa da consulta até um programa.
Esse circuito depende da rede de referenciação em oncologia, que a estratégia previa formalizar até 2026. No perfil de Portugal publicado pela OCDE no início de 2025, a rede ainda não tinha sido criada.
Em Abril, Eliana Carraça e colegas publicaram na Supportive Care in Cancer um inquérito a 152 médicos que trabalham em oncologia em Portugal. Desses, 98% disseram que encaminhariam para fisiologistas do exercício se estes estivessem integrados no sistema de saúde. O encaminhamento que faziam na prática ficava muito aquém, e a amostra de conveniência tende a sobrestimar estas práticas.
O que falta em Portugal
A norma americana põe a avaliação e o encaminhamento para exercício entre os critérios que um centro tem de cumprir para ser acreditado. A estratégia portuguesa também prevê definir critérios de certificação para os centros da rede de oncologia.
O que falta para Portugal ter um circuito de encaminhamento para exercício em oncologia?
O que fica
- Os centros acreditados nos EUA vão ter de avaliar e oferecer encaminhamento para exercício
- Há três níveis de encaminhamento e o centro não precisa de ter programa próprio
- Já existem instrumentos de triagem, um deles pensado para sistemas com poucos recursos
- A norma não cria financiamento nem mede a adesão aos programas
- Em Portugal, a estratégia nacional não fixa metas de avaliação ou encaminhamento para exercício
- Quase todos os médicos inquiridos em Portugal encaminhariam, se houvesse fisiologistas do exercício no sistema
Fontes
- Commission on Cancer, American College of Surgeons · Proposta de norma Exercise Oncology Services · 2026
- American College of Surgeons · Cancer Programs News, 23 de Julho de 2026 · consulta pública da norma
- American College of Surgeons · Acreditação da Commission on Cancer · 2026
- Instituto Oncoguia · Painel de Políticas Públicas do Câncer · 2026 · aprovação e calendário da Norma 4.9
- Covington KR et al. · Supportive Care in Cancer · 2021 · EXCEEDS
- Simon LH et al. · Cancer · 2025 · CORE
- Capozzi LC et al. · Current Oncology · 2023 · CREST
- Brennan L et al. · Journal of Cancer Survivorship · 2024 · PERCS
- Schmitz KH et al. · Supportive Care in Cancer · 2024 · implementação do EXCEEDS em Pittsburgh
- Ligibel JA et al. · Cancer · 2022 · inquérito nacional a doentes
- Kennedy MA et al. · JNCI Monographs · 2023
- Revisão sobre integração do exercício nos cuidados oncológicos · JNCI Monographs · 2025
- Campbell KL et al. · Medicine & Science in Sports & Exercise · 2019 · doi:10.1249/MSS.0000000000002116
- Ligibel JA et al. · Journal of Clinical Oncology · 2022 · doi:10.1200/JCO.22.00687
- Rock CL et al. · CA: A Cancer Journal for Clinicians · 2022 · doi:10.3322/caac.21719
- Courneya KS et al. · New England Journal of Medicine · 2025 · CHALLENGE · doi:10.1056/NEJMoa2502760
- Pentheroudakis G et al. · ESMO Open · 2026 · doi:10.1016/j.esmoop.2025.106019
- Schmitz KH et al. · Cancer · 2021 · agenda Moving Through Cancer
- Despacho n.º 13227/2023 · Diário da República · 2023 · Estratégia Nacional de Luta contra o Cancro, horizonte 2030
- DGS · Guia de consulta rápida sobre prescrição de exercício físico em doentes oncológicos
- OCDE e Observatório Europeu dos Sistemas e Políticas de Saúde · EU Country Cancer Profile: Portugal · 2025
- Carraça EV et al. · Supportive Care in Cancer · 2026
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