Exercício físico

Centros oncológicos americanos vão ter de avaliar quem precisa de exercício

A partir de 2028, os centros oncológicos acreditados nos EUA terão de avaliar e oferecer encaminhamento para exercício. A norma define três níveis de apoio, mas não resolve o financiamento. E em Portugal?

8 de Outubro, 2026 9 min de leitura
Ténis cor-de-rosa sobre um tapete de exercício durante uma sessão de atividade física

Em Setembro, a Commission on Cancer, a entidade de acreditação oncológica do American College of Surgeons, aprovou a Norma 4.9. Os centros oncológicos acreditados nos Estados Unidos vão ter de avaliar cada pessoa com diagnóstico recente de cancro e oferecer encaminhamento para exercício. A entrada em vigor está prevista para 1 de Janeiro de 2028.

A acreditação é voluntária e chega à maioria das pessoas com cancro no país. Segundo o American College of Surgeons, os programas acreditados tratam mais de 74% das pessoas com diagnóstico recente de cancro nos Estados Unidos.

O que a norma exige

Cada centro tem de ter um protocolo escrito. O protocolo define o instrumento de avaliação, o momento em que é aplicado, os limiares que separam os níveis e os serviços disponíveis, no próprio centro ou fora dele.

A avaliação decorre durante o primeiro tratamento. Pode ser feita por qualquer elemento da equipa, incluindo enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e pessoal de apoio clínico. O resultado encaminha a pessoa para um de três níveis:

  • Reabilitação oncológica, para sintomas e limitações mais graves, com encaminhamento feito por médicos ou outros profissionais habilitados a prescrever.
  • Exercício oncológico, em programas liderados por fisioterapeutas ou profissionais de exercício certificados, presenciais ou online, em grupo ou individuais.
  • Programas comunitários, fora do hospital.

Um centro sem programa de exercício próprio continua obrigado a avaliar e a oferecer encaminhamento, por exemplo para programas online ou gratuitos. Quem já é suficientemente activo pode dispensar o encaminhamento, desde que o processo clínico registe que foi incentivado a continuar.

Todos os anos, a comissão de cancro do centro revê o circuito e regista essa revisão em acta.

Os instrumentos de triagem já existem

A norma cita quatro instrumentos de triagem, desenvolvidos em três países. Um centro pode adoptar um deles ou usar o seu, desde que o escreva no protocolo.

Instrumento Como funciona Fonte
EXCEEDS 🇺🇸 Questionário curto que encaminha cada pessoa para reabilitação, exercício supervisionado ou exercício na comunidade. Tem uma versão online gratuita. Covington KR et al., Supportive Care in Cancer, 2021
CORE 🇺🇸 Integrado na primeira consulta de cirurgia do cancro da mama. No estudo de viabilidade, 92,5% das doentes completaram a triagem e 62% concluíram o encaminhamento. Simon LH et al., Cancer, 2025
CREST 🇨🇦 Rastreio de menos de cinco minutos para inactividade e limitações funcionais. Os autores indicam que ainda precisa de validação. Capozzi LC et al., Current Oncology, 2023
PERCS 🇮🇪 Desenhado para um sistema de saúde com poucos recursos de reabilitação oncológica. No estudo de viabilidade, mais de 90% dos participantes precisavam de apoio e a maioria foi encaminhada para programas comunitários. Brennan L et al., Journal of Cancer Survivorship, 2024

Como funcionou num centro

Em Pittsburgh, a equipa de Kathryn Schmitz pôs o EXCEEDS a funcionar no hospital de dia de quimioterapia. Os assistentes médicos entregavam um tablet com as perguntas na segunda sessão de tratamento, o que lhes levava dois a cinco minutos.

Das 391 pessoas que responderam, 45% aceitaram encaminhamento para exercício ou reabilitação. Num inquérito nacional da ASCO, publicado por Jennifer Ligibel e colegas em 2022, só 15% dos doentes se lembravam de ter sido encaminhados para exercício pelo oncologista.

Os dois números vêm de contextos diferentes e medem coisas diferentes. O projecto de Pittsburgh foi de melhoria de qualidade, num único centro, e a aceitação foi mais baixa entre quem foi triado para programas comunitários. Schmitz, primeira autora do estudo, liderou também a proposta da norma.

O que fica de fora

A norma não cria financiamento. Nos Estados Unidos, fora da reabilitação, os programas de exercício oncológico continuam, em regra, sem cobertura dos seguros, segundo uma revisão de Kennedy e colegas publicada em 2023 no JNCI Monographs.

Os critérios de cumprimento medem se o encaminhamento é oferecido. Quantas pessoas chegam a um programa, e quantas o completam, fica fora da avaliação.

O texto final ainda não está publicado no site da Commission on Cancer. A versão conhecida é a proposta que esteve em consulta pública em Julho e Agosto, escrita para que os centros a possam cumprir sem contratar pessoal.

Porque surge agora

As recomendações para incluir exercício nos cuidados oncológicos já existiam. O American College of Sports Medicine publicou orientações em 2019, e a ASCO e a American Cancer Society fizeram o mesmo em 2022.

Fora dos Estados Unidos, o quadro é parecido. Uma revisão publicada em 2025 no JNCI Monographs encontrou guidelines formais sobre exercício em oncologia na Austrália, no Brasil, no Canadá, na China, no Reino Unido e nos Estados Unidos, com uma em preparação na Alemanha. A maioria pede aos profissionais que falem de exercício com os doentes e os encaminhem, e só uma organização, nos Estados Unidos, tinha ido ao ponto de o tornar requisito de acreditação.

Em 2025, o ensaio CHALLENGE, publicado no New England Journal of Medicine por Kerry Courneya e colegas, mostrou que um programa estruturado de exercício reduz o risco de recidiva no cancro do cólon. Foi a primeira vez que um ensaio de fase 3 demonstrou este efeito. Em Janeiro de 2026, a ESMO passou a recomendar estes programas a quem foi operado a um cancro do cólon de estádio III ou de estádio II de alto risco.

A Norma 4.9 abrange qualquer tipo de cancro e transforma a recomendação num circuito com regras: avaliar, encaminhar, registar e rever. O trabalho para chegar aqui começou antes do ensaio. Em 2021, Kathryn Schmitz e colegas publicaram na revista Cancer uma agenda que já apontava a Commission on Cancer como um dos organismos com quem queriam definir normas.

E em Portugal

A Estratégia Nacional de Luta contra o Cancro, aprovada pelo Despacho n.º 13227/2023, inclui medidas para o exercício. Entre elas estão um guia de prescrição e um projecto piloto de consulta de actividade física, previsto até 2026 em unidades certificadas da rede de referenciação oncológica.

Para a nutrição e a psiconcologia, a mesma estratégia fixa metas específicas de cobertura até 2030. Para o exercício, não define quantas pessoas com cancro devem ser avaliadas ou encaminhadas.

A DGS já publicou um guia de consulta rápida sobre prescrição de exercício a pessoas com cancro, preparado pelos programas nacionais da actividade física e das doenças oncológicas. O passo seguinte é o circuito que leva cada pessoa da consulta até um programa.

Esse circuito depende da rede de referenciação em oncologia, que a estratégia previa formalizar até 2026. No perfil de Portugal publicado pela OCDE no início de 2025, a rede ainda não tinha sido criada.

Em Abril, Eliana Carraça e colegas publicaram na Supportive Care in Cancer um inquérito a 152 médicos que trabalham em oncologia em Portugal. Desses, 98% disseram que encaminhariam para fisiologistas do exercício se estes estivessem integrados no sistema de saúde. O encaminhamento que faziam na prática ficava muito aquém, e a amostra de conveniência tende a sobrestimar estas práticas.

O que falta em Portugal

A norma americana põe a avaliação e o encaminhamento para exercício entre os critérios que um centro tem de cumprir para ser acreditado. A estratégia portuguesa também prevê definir critérios de certificação para os centros da rede de oncologia.

O que falta para Portugal ter um circuito de encaminhamento para exercício em oncologia?

O que fica

  • Os centros acreditados nos EUA vão ter de avaliar e oferecer encaminhamento para exercício
  • Há três níveis de encaminhamento e o centro não precisa de ter programa próprio
  • Já existem instrumentos de triagem, um deles pensado para sistemas com poucos recursos
  • A norma não cria financiamento nem mede a adesão aos programas
  • Em Portugal, a estratégia nacional não fixa metas de avaliação ou encaminhamento para exercício
  • Quase todos os médicos inquiridos em Portugal encaminhariam, se houvesse fisiologistas do exercício no sistema

Fontes

Partilhar

Precisa de acompanhamento?

A equipa da AIM ajuda a construir um plano integrativo à sua medida.

Marque uma consulta
Newsletter

Novos artigos, direto no seu email

Investigação, prevenção e histórias sobre cancro, sem ruído nem alarmismo. Enviamos apenas quando há algo que vale mesmo a pena ler.

Pode cancelar a subscrição a qualquer momento.

Área do aluno
WhatsApp