have to offer
O paradoxo do protector solar
Quem usa mais protector solar tem mais cancro de pele nalguns estudos, e a explicação mais provável está no que fazemos depois de o aplicar

Uma análise do UK Biobank publicada em 2023 encontrou uma associação entre uso frequente de protector solar e maior incidência de cancro de pele (Jeremian R et al.). O resultado circulou muito, quase sempre com a conclusão errada.
A conclusão errada é a de que o protector solar provoca cancro de pele. Nenhum destes estudos sustenta essa leitura, e a discussão que interessa é outra.
Duas leituras possíveis do mesmo dado
A primeira é a causalidade invertida: quem já teve lesões, quem tem pele muito clara ou história familiar usa mais protector precisamente por ter mais risco, e também é vigiado com mais frequência, o que aumenta a probabilidade de lhe ser detectada uma lesão.
A segunda envolve comportamento. Uma meta-análise com mais de 313 000 participantes não encontrou relação em nenhum dos sentidos entre uso de protector solar e melanoma (Silva ESD et al., 2018). Quando um dado aparece positivo num estudo e nulo noutro maior, a explicação raramente está no produto.
A parte comportamental é o centro do problema
Em 1997, Autier e colegas distribuíram protector solar por 87 participantes em férias, uns com factor 10 e outros com factor 30, sem lhes dizer qual tinham recebido. O grupo com factor mais alto passou cerca de 25% mais tempo ao sol.
É o mecanismo mais citado para explicar o paradoxo. Nessa experiência, a protecção adicional foi convertida em mais horas ao sol em vez de menos exposição total, e nessas condições o efeito líquido pode anular-se.
O fenómeno tem nome na literatura de saúde pública. Chama-se compensação de risco e descreve o que acontece quando uma medida de protecção é introduzida e o comportamento se ajusta a ela, consumindo parte do benefício em mais exposição. Está descrito noutras áreas e não é exclusivo do sol.
No caso do protector solar há uma razão biológica que ajuda a perceber por que motivo o ajuste acontece quase sem se dar por isso. A queimadura é o sinal que o corpo dá para procurar sombra, e o protector adia esse sinal. Sem vermelhidão e sem ardor, desaparece o aviso que faria a pessoa sair do sol, e o tempo de exposição prolonga-se sem que nada o interrompa.
Há ainda uma assimetria entre o que o factor mede e o que o sol faz. O número indicado no rótulo refere-se sobretudo à protecção contra a radiação responsável pela queimadura. A radiação de maior comprimento de onda, que penetra mais fundo e contribui para o dano acumulado na pele, está menos coberta por essa medida. O resultado é que o sinal visível fica suprimido mais do que o dano subjacente.
É isto que transforma um produto eficaz num resultado nulo. O protector cumpre o que promete durante o tempo em que é usado, e o ganho é depois gasto em mais horas de exposição.
Quando é usado como complemento, protege
O ensaio de Nambour, na Austrália, mostrou redução de carcinomas espinocelulares e um sinal de redução de melanoma no seguimento a longo prazo (Green A et al., 1999 e 2011). Numa coorte norueguesa com 143 000 mulheres, o uso de factor alto associou-se a menor incidência de melanoma (Ghiasvand R et al., 2016).
A diferença entre estes resultados e o paradoxo inicial poderá estar no papel que o produto ocupa. Nos estudos em que aparece associado a menos cancro, o protector é usado como complemento de roupa, sombra e evicção das horas de maior intensidade, e não como substituto dessas medidas.
O que continua em aberto
Dois pontos merecem acompanhamento. A absorção sistémica de filtros químicos levou a União Europeia a reduzir o limite permitido de oxibenzona. E um ensaio australiano descreveu impacto no estado de vitamina D com uso muito consistente (Tran TN et al., 2025), embora a solução aí passe por suplementação e não por menos protecção.
Vale ainda esclarecer o que significa o factor. A protecção não cresce de forma proporcional ao número, e a diferença entre um factor 30 e um factor 50 é pequena em termos absolutos. Muito mais determinante é a quantidade aplicada, que na prática costuma ser bastante inferior à usada nos testes que atribuem o factor, e a reaplicação ao longo do dia.
O que fazer com isto
A conclusão prática é a mais simples de dizer e a mais difícil de cumprir. Usar protector solar, sim, porque nos ensaios em que é usado como complemento das outras medidas está associado a menos cancros de pele. Usá-lo para ficar mais tempo ao sol, não, porque é aí que o benefício se perde.
O que protege é a soma: sombra nas horas de maior intensidade, roupa, chapéu e óculos, e protector na pele que fica exposta, aplicado em quantidade suficiente e reaplicado ao longo do dia. Nesta ordem, e não com o protector a substituir o resto.
A pergunta útil no momento de aplicar é se a decisão sobre quanto tempo se vai ficar ao sol mudou por causa disso. Se mudou, o produto passou a funcionar como autorização para uma exposição maior, e é essa a contradição que explica o paradoxo.
O QUE FICA
- Um estudo do UK Biobank associou uso frequente de protector solar a mais cancro de pele.
- Uma meta-análise com mais de 313 000 participantes não encontrou relação em nenhum sentido.
- Num ensaio de 1997, quem recebeu factor mais alto passou cerca de 25% mais tempo ao sol.
- O protector adia a queimadura, que é o sinal que levaria a pessoa a procurar sombra.
- Usado como complemento de roupa e sombra, o protector associou-se a menos cancros de pele em ensaios e coortes.
- A regra prática é usar protector para reduzir o dano do tempo que se vai passar ao sol, e não para aumentar esse tempo.
Fontes
- Jeremian R et al. · 2023 · Uso de protector solar e cancro de pele no UK Biobank
- Autier P et al. · 1997 · Ensaio aleatorizado sobre factor de protecção e tempo de exposição
- Silva ESD et al. · 2018 · Meta-análise sobre protector solar e melanoma
- Green A et al. · 1999 e 2011 · Ensaio de Nambour e seguimento a longo prazo
- Ghiasvand R et al. · 2016 · Coorte norueguesa com 143 000 mulheres
- Tran TN et al. · 2025 · Ensaio australiano sobre protector solar e vitamina D