Saúde Pública e Políticas

A linguagem de guerra no cancro ajuda menos do que se pensa

Dizer a alguém que tem de lutar parece encorajamento, e em parte das pessoas produz o efeito contrário

31 de Março, 2026 4 min de leitura
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Tens de lutar, sê forte, não desistas. São frases ditas com boa intenção e por pessoas que querem ajudar. A investigação sobre o efeito destas metáforas mostra que elas não funcionam da mesma forma para toda a gente.

É um dos casos em que a linguagem usada por quem acompanha pode ser estudada como se estuda uma intervenção, com efeitos mensuráveis sobre comportamento e sobre bem-estar.

De onde vem esta linguagem?

Susan Sontag descreveu em 1978, em Illness as Metaphor, como a doença foi sendo carregada de significados morais que nada têm que ver com a biologia. A metáfora militar aplicada ao cancro consolidou-se com a declaração de guerra ao cancro nos Estados Unidos, em 1971, e passou daí para o discurso público e clínico.

O que os estudos mostram

Hauser e Schwarz encontraram que a exposição a metáforas de combate se associou a menor intenção de adoptar comportamentos de prevenção, e não a maior (Health Communication, 2019). O enquadramento de luta parece favorecer a ideia de resistir ao que aparece, em vez da de evitar que apareça.

Semino e colegas analisaram um corpus grande de textos de pessoas com cancro e mostraram que as mesmas metáforas produzem efeitos opostos consoante quem as usa (BMJ Supportive & Palliative Care, 2017). Para algumas pessoas, a metáfora de batalha dá sentido de agência e é útil. Para outras, transforma a doença num teste de carácter que se pode falhar.

O problema de fundo

Se o cancro é uma batalha, quem morre perdeu. É uma implicação que ninguém pretende, e que está inscrita na metáfora. A médica britânica Kate Granger, ela própria com cancro incurável, escreveu em 2014 no Guardian sobre o peso de ser descrita como alguém que perdeu uma luta que nunca escolheu travar.

Há também um efeito prático nas decisões clínicas. Quando parar um tratamento é lido como desistir, torna-se mais difícil discutir a transição para cuidados paliativos no momento em que ela beneficiaria a pessoa.

O que se pode dizer em vez disso

A alternativa não é evitar falar. É seguir a linguagem que a própria pessoa usa. Quem se descreve em batalha deve ser acompanhado nesse registo. Quem fala em atravessar, gerir ou viver com a doença também.

Estar presente, perguntar como está hoje e ouvir a resposta é o que os estudos qualitativos descrevem como mais útil. Vale ainda a pena lembrar que a família e os amigos também precisam de linguagem para o que estão a viver, e raramente lha damos.

Várias organizações de doentes reviram a sua comunicação nos últimos anos, e algumas redacções deixaram de usar a fórmula perdeu a batalha nos obituários. É uma mudança pequena e tem consequências para quem fica.

O QUE FICA

  • A metáfora militar consolidou-se com a declaração de guerra ao cancro nos Estados Unidos em 1971.
  • A exposição a metáforas de combate associou-se a menor intenção de adoptar comportamentos preventivos.
  • As mesmas metáforas ajudam umas pessoas e prejudicam outras, consoante quem as usa.
  • Se a doença é uma batalha, quem morre perdeu, o que é uma implicação que ninguém pretende.
  • A alternativa é acompanhar a linguagem que a própria pessoa escolhe usar.

Fontes

  • Sontag S · Illness as Metaphor, 1978
  • Hauser DJ, Schwarz N · Health Communication, 2019 · Metáforas de combate e comportamentos de prevenção
  • Granger K · The Guardian, 2014 · Testemunho sobre linguagem de batalha no cancro
  • Semino E et al. · BMJ Supportive & Palliative Care, 2017 · Metáforas de violência e viagem em cancro
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