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A linguagem de guerra no cancro ajuda menos do que se pensa
Dizer a alguém que tem de lutar parece encorajamento, e em parte das pessoas produz o efeito contrário

Tens de lutar, sê forte, não desistas. São frases ditas com boa intenção e por pessoas que querem ajudar. A investigação sobre o efeito destas metáforas mostra que elas não funcionam da mesma forma para toda a gente.
É um dos casos em que a linguagem usada por quem acompanha pode ser estudada como se estuda uma intervenção, com efeitos mensuráveis sobre comportamento e sobre bem-estar.
De onde vem esta linguagem?
Susan Sontag descreveu em 1978, em Illness as Metaphor, como a doença foi sendo carregada de significados morais que nada têm que ver com a biologia. A metáfora militar aplicada ao cancro consolidou-se com a declaração de guerra ao cancro nos Estados Unidos, em 1971, e passou daí para o discurso público e clínico.
O que os estudos mostram
Hauser e Schwarz encontraram que a exposição a metáforas de combate se associou a menor intenção de adoptar comportamentos de prevenção, e não a maior (Health Communication, 2019). O enquadramento de luta parece favorecer a ideia de resistir ao que aparece, em vez da de evitar que apareça.
Semino e colegas analisaram um corpus grande de textos de pessoas com cancro e mostraram que as mesmas metáforas produzem efeitos opostos consoante quem as usa (BMJ Supportive & Palliative Care, 2017). Para algumas pessoas, a metáfora de batalha dá sentido de agência e é útil. Para outras, transforma a doença num teste de carácter que se pode falhar.
O problema de fundo
Se o cancro é uma batalha, quem morre perdeu. É uma implicação que ninguém pretende, e que está inscrita na metáfora. A médica britânica Kate Granger, ela própria com cancro incurável, escreveu em 2014 no Guardian sobre o peso de ser descrita como alguém que perdeu uma luta que nunca escolheu travar.
Há também um efeito prático nas decisões clínicas. Quando parar um tratamento é lido como desistir, torna-se mais difícil discutir a transição para cuidados paliativos no momento em que ela beneficiaria a pessoa.
O que se pode dizer em vez disso
A alternativa não é evitar falar. É seguir a linguagem que a própria pessoa usa. Quem se descreve em batalha deve ser acompanhado nesse registo. Quem fala em atravessar, gerir ou viver com a doença também.
Estar presente, perguntar como está hoje e ouvir a resposta é o que os estudos qualitativos descrevem como mais útil. Vale ainda a pena lembrar que a família e os amigos também precisam de linguagem para o que estão a viver, e raramente lha damos.
Várias organizações de doentes reviram a sua comunicação nos últimos anos, e algumas redacções deixaram de usar a fórmula perdeu a batalha nos obituários. É uma mudança pequena e tem consequências para quem fica.
O QUE FICA
- A metáfora militar consolidou-se com a declaração de guerra ao cancro nos Estados Unidos em 1971.
- A exposição a metáforas de combate associou-se a menor intenção de adoptar comportamentos preventivos.
- As mesmas metáforas ajudam umas pessoas e prejudicam outras, consoante quem as usa.
- Se a doença é uma batalha, quem morre perdeu, o que é uma implicação que ninguém pretende.
- A alternativa é acompanhar a linguagem que a própria pessoa escolhe usar.
Fontes
- Sontag S · Illness as Metaphor, 1978
- Hauser DJ, Schwarz N · Health Communication, 2019 · Metáforas de combate e comportamentos de prevenção
- Granger K · The Guardian, 2014 · Testemunho sobre linguagem de batalha no cancro
- Semino E et al. · BMJ Supportive & Palliative Care, 2017 · Metáforas de violência e viagem em cancro