Investigação

Detectar cancro numa análise de sangue divide a oncologia

Os testes que procuram sinais de dezenas de cancros ao mesmo tempo têm defensores e críticos com bons argumentos, e o maior ensaio ainda não resolveu a discussão

15 de Março, 2026 3 min de leitura
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Chamam-se testes de detecção precoce multi-cancro. Procuram no sangue fragmentos de ADN libertados por tumores e conseguem sinalizar dezenas de cancros a partir de uma colheita. A tecnologia existe e está a ser vendida em vários países. Se deve ser usada em pessoas saudáveis é outra questão.

O argumento a favor

Os programas de rastreio organizados cobrem três ou quatro cancros. Para o pâncreas, o ovário, o fígado e muitos outros não existe rastreio em lado nenhum, e são cancros habitualmente detectados tarde, quando as opções de tratamento são poucas.

A tecnologia assenta em padrões de metilação do ADN circulante, que variam consoante o tecido de origem. É isso que permite não só sinalizar a presença de um tumor como sugerir de que órgão provém, informação necessária para orientar a investigação seguinte.

Para essas doenças, um teste imperfeito pode ser a primeira ferramenta real de detecção antes dos sintomas.

O argumento contra

Detectar mais não significa necessariamente salvar mais. Um teste pode encontrar tumores que nunca teriam causado problemas, com o custo de biópsias, cirurgias e ansiedade em pessoas que estavam bem. O caso da tiróide na Coreia do Sul mostra o que acontece quando isso corre mal.

Há ainda o risco de falsa segurança. Se alguém interpretar um resultado negativo como dispensa de mamografia ou de colonoscopia, o teste terá causado dano sem ter falhado tecnicamente.

O que mostrou o maior ensaio

O NHS-Galleri seguiu cerca de 142 000 participantes no Reino Unido durante três anos, com resultados divulgados em 2026 (NCT05611632). Encontrou mais cancros em fase inicial e menos em fase avançada, mas a redução de cancros avançados não atingiu significado estatístico no objectivo principal.

Sinais positivos existem, provas definitivas ainda não. A pergunta que falta responder é a única que interessa mesmo, que é se estes testes reduzem a mortalidade. Até lá, os rastreios organizados existentes continuam a ser a melhor protecção disponível.

Em Portugal estes testes não integram nenhum programa público. Em vários países são vendidos directamente ao consumidor, e nesses casos o custo, a interpretação do resultado e a investigação subsequente ficam do lado da pessoa.

O QUE FICA

  • Os testes multi-cancro procuram no sangue fragmentos de ADN libertados por tumores.
  • Para cancros sem rastreio, como o pâncreas ou o ovário, podem ser a primeira ferramenta de detecção precoce.
  • O risco principal é o sobrediagnóstico e a falsa segurança que leve a abandonar rastreios eficazes.
  • O ensaio NHS-Galleri, com 142 000 participantes, não atingiu o objectivo principal.
  • Falta responder à pergunta central, que é se estes testes reduzem a mortalidade.

Fontes

  • Ensaio NHS-Galleri · NCT05611632 · 142 000 participantes, resultados divulgados em 2026
  • The Lancet Oncology, 2026 · Análise de testes de detecção precoce multi-cancro
  • Nature Reviews Clinical Oncology, 2025 · Revisão sobre biópsia líquida em rastreio
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