Investigação

Quem nasceu nos anos 90 tem mais risco de cancro do que quem nasceu nos anos 50

O aumento repete-se em vários cancros e em vários países, e as explicações habituais não chegam para o justificar

26 de Agosto, 2026 5 min de leitura
84282 geracoes exposicoes Quem nasceu nos anos 90 tem mais risco de cancro do que quem nasceu nos anos 50

Comparando pessoas da mesma idade nascidas em décadas diferentes, o risco de cancro colorrectal é 1,22 vezes maior em quem nasceu entre 1965 e 1969, 1,89 vezes maior em quem nasceu entre 1980 e 1984, e 2,98 vezes maior em quem nasceu entre 1990 e 1994, sempre em relação à coorte de 1950 a 1954 (Gupta S et al., Clinical Gastroenterology and Hepatology, 2024). Os dados são norte-americanos, o que importa reter.

E não é só o intestino. Sung e colegas encontraram subidas semelhantes noutros cancros ao comparar coortes de nascimento: rim 2,9 vezes, endométrio 2,7 vezes, pâncreas 2,6 vezes, intestino delgado 3,6 vezes (Lancet Public Health, 2024).

O que estas análises fazem é comparar pessoas na mesma faixa etária mas nascidas em décadas diferentes, o que separa o efeito da idade do efeito de ter nascido num determinado momento. É uma forma de perguntar se alguma coisa mudou no ambiente entre gerações.

Três explicações fáceis que não resolvem o problema

A primeira é o rastreio. Se procurássemos mais, encontraríamos mais. Só que o rastreio colorrectal organizado começa aos 45 ou 50 anos na maioria dos países, e o aumento aparece precisamente abaixo dessa idade, em pessoas que não estão a ser rastreadas.

A segunda é o tabaco, que está em queda nas gerações mais novas, o que vai no sentido contrário ao observado. A terceira é a genética, que não muda em três gerações. Restam a obesidade e a alimentação, que estão associadas a parte do aumento, sem que nenhuma análise lhes consiga atribuir o aumento todo.

O conceito de exposoma ajuda a organizar o problema

Chama-se exposoma ao conjunto de tudo aquilo a que uma pessoa está exposta ao longo da vida, desde a alimentação e os medicamentos até aos poluentes, ao ruído e ao padrão de sono. A ideia central, desenvolvida por Ugai e colegas numa revisão publicada na Nature Reviews Clinical Oncology em 2022, é que estas exposições não actuam isoladas nem se somam de forma linear.

Hormonas, microbiota intestinal, sistema imunitário e expressão genética influenciam-se mutuamente. Uma alteração da microbiota pode modificar a inflamação, a inflamação pode alterar a expressão de genes, e há compostos químicos que actuam sobre receptores hormonais. Cada geração herda uma versão diferente desta rede, e quem nasceu depois de 1980 herdou uma que nenhuma anterior tinha experimentado.

O momento da exposição pode importar tanto como a dose

Há períodos em que estes sistemas se calibram: a vida intra-uterina, os primeiros anos, e a puberdade. Uma exposição que num adulto tem pouco efeito pode, nessas janelas, alterar de forma duradoura a forma como um sistema funciona.

É uma hipótese com apoio experimental e com plausibilidade biológica, mas convém dizer que não está demonstrada em humanos para a maioria dos compostos em causa. Shiels e colegas documentaram o aumento absoluto de casos em adultos jovens nos Estados Unidos (Cancer Discovery, 2025), sem que exista ainda uma explicação causal consensual.

Uma consequência prática para quem regula

Os ultraprocessados são o exemplo mais visível deste sistema. Em vários países europeus representam cerca de 40% das calorias consumidas (Mertens E et al., European Journal of Nutrition, 2022), e entre os adolescentes britânicos chegam aos 66% (Chang K et al., European Journal of Nutrition, 2024).

A regulação de aditivos e contaminantes é feita substância a substância, com um limite de segurança calculado para cada uma isoladamente. Se o efeito depende da combinação e do momento em que ocorre, a pergunta que se coloca é se faz sentido continuar a regular desta forma. É uma questão política, não científica, e é sobretudo por aí que este conjunto de estudos tem consequências.

Falta a peça portuguesa. Não existe publicado um trabalho equivalente com dados nacionais por coorte de nascimento, e sem ele não é possível saber se a magnitude observada nos Estados Unidos se aplica ao país. O rastreio colorrectal organizado em Portugal continua a começar aos 50 anos.

O QUE FICA

  • Quem nasceu entre 1990 e 1994 tem quase três vezes mais risco de cancro colorrectal do que quem nasceu nos anos 50, à mesma idade.
  • O padrão repete-se no rim, no endométrio, no pâncreas e no intestino delgado.
  • Rastreio, tabaco e genética não explicam o aumento, e a obesidade está associada apenas a uma parte.
  • As exposições interagem entre si e podem ter mais efeito em janelas de desenvolvimento como a infância e a puberdade.
  • Os dados de coorte de nascimento são norte-americanos e ainda não existe equivalente português.

Fontes

  • Gupta S et al. · Clinical Gastroenterology and Hepatology, 2024 · Risco de cancro colorrectal por coorte de nascimento
  • Sung H et al. · Lancet Public Health, 2024 · Incidência por coorte de nascimento em 34 cancros
  • Ugai T et al. · Nature Reviews Clinical Oncology, 2022 · Cancro de início precoce e exposoma
  • Shiels MS et al. · Cancer Discovery, 2025 · Aumento absoluto de casos em adultos jovens
  • Mertens E et al. · European Journal of Nutrition, 2022 · Consumo de ultraprocessados em 22 países europeus
  • Chang K et al. · European Journal of Nutrition, 2024 · Ultraprocessados em adolescentes no Reino Unido
Partilhar
Newsletter

Novos artigos, direto no seu email

Investigação, prevenção e histórias sobre cancro, sem ruído nem alarmismo. Enviamos apenas quando há algo que vale mesmo a pena ler.

Pode cancelar a subscrição a qualquer momento.

WhatsApp