Investigação

Quarenta anos depois, um avanço no cancro do pâncreas

O daraxonrasib mostrou benefício de sobrevivência num cancro que quase não mudou desde os anos 80

27 de Maio, 2026 3 min de leitura
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O cancro do pâncreas metastático é um dos poucos onde o prognóstico praticamente não se alterou em quatro décadas. A gemcitabina foi aprovada em 1996, os esquemas de combinação trouxeram ganhos de semanas, e as tentativas de atacar a alteração genética mais frequente da doença falharam sistematicamente.

É também um cancro em crescimento. A incidência tem subido em vários países europeus e a sobrevivência aos cinco anos continua a ser das mais baixas de toda a oncologia. Em Portugal, a Madeira aparece no primeiro lugar da incidência de cancro do pâncreas entre as regiões.

O alvo que se dizia intratável

Cerca de nove em cada dez cancros do pâncreas têm mutações no gene KRAS. Durante trinta anos, a proteína produzida por este gene foi considerada impossível de inibir com um fármaco, por não ter uma cavidade onde uma molécula pudesse encaixar. Ficou conhecida na literatura como um alvo sem fármaco possível.

As primeiras excepções apareceram na década passada, com inibidores dirigidos a uma mutação específica, a G12C, que é rara no pâncreas. O daraxonrasib segue outra via e actua sobre um conjunto mais alargado de formas activas da proteína.

É a essa abordagem que se chama inibição pan-RAS, por oposição aos inibidores dirigidos a uma única mutação. A vantagem teórica é abranger a maioria dos doentes em vez de uma minoria.

O que mostrou o ensaio

O RASolute 302, publicado no New England Journal of Medicine em 2026, testou o daraxonrasib em pessoas com cancro do pâncreas metastático já tratadas anteriormente, e mostrou benefício de sobrevivência em relação ao tratamento habitual de segunda linha (Wolpin BM et al., NCT06625320).

O ganho conta-se em meses e não em anos, e o fármaco foi estudado em segunda linha, ou seja depois de outro tratamento ter falhado. Num cancro em que a sobrevivência mediana se mede em meses, um ganho de meses é relevante. Dizer mais do que isso seria ir além do que o ensaio mostrou.

A questão do acesso

O preço anunciado nos Estados Unidos ronda os 30 mil dólares por mês. Em Portugal, o intervalo mediano entre a aprovação europeia e a disponibilidade efectiva de um medicamento oncológico é dos mais longos da União Europeia, o que significa que a distância entre o resultado do ensaio e a primeira pessoa tratada no Serviço Nacional de Saúde se conta em anos.

O QUE FICA

  • Cerca de 90% dos cancros do pâncreas têm mutações no gene KRAS, considerado durante décadas impossível de inibir.
  • O ensaio RASolute 302 mostrou benefício de sobrevivência com daraxonrasib em segunda linha.
  • O ganho conta-se em meses, num cancro cuja sobrevivência mediana também se mede em meses.
  • O preço anunciado nos Estados Unidos ronda os 30 mil dólares por mês.
  • O tempo até à disponibilidade efectiva em Portugal é dos mais longos da União Europeia.

Fontes

  • Wolpin BM et al. · New England Journal of Medicine, 2026 · Ensaio RASolute 302, NCT06625320
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