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Quem nasceu nos anos 90 tem mais risco de cancro do que quem nasceu nos anos 50
O aumento repete-se em vários cancros e em vários países, e as explicações habituais não chegam para o justificar

Comparando pessoas da mesma idade nascidas em décadas diferentes, o risco de cancro colorrectal é 1,22 vezes maior em quem nasceu entre 1965 e 1969, 1,89 vezes maior em quem nasceu entre 1980 e 1984, e 2,98 vezes maior em quem nasceu entre 1990 e 1994, sempre em relação à coorte de 1950 a 1954 (Gupta S et al., Clinical Gastroenterology and Hepatology, 2024). Os dados são norte-americanos, o que importa reter.
E não é só o intestino. Sung e colegas encontraram subidas semelhantes noutros cancros ao comparar coortes de nascimento: rim 2,9 vezes, endométrio 2,7 vezes, pâncreas 2,6 vezes, intestino delgado 3,6 vezes (Lancet Public Health, 2024).
O que estas análises fazem é comparar pessoas na mesma faixa etária mas nascidas em décadas diferentes, o que separa o efeito da idade do efeito de ter nascido num determinado momento. É uma forma de perguntar se alguma coisa mudou no ambiente entre gerações.
Três explicações fáceis que não resolvem o problema
A primeira é o rastreio. Se procurássemos mais, encontraríamos mais. Só que o rastreio colorrectal organizado começa aos 45 ou 50 anos na maioria dos países, e o aumento aparece precisamente abaixo dessa idade, em pessoas que não estão a ser rastreadas.
A segunda é o tabaco, que está em queda nas gerações mais novas, o que vai no sentido contrário ao observado. A terceira é a genética, que não muda em três gerações. Restam a obesidade e a alimentação, que estão associadas a parte do aumento, sem que nenhuma análise lhes consiga atribuir o aumento todo.
O conceito de exposoma ajuda a organizar o problema
Chama-se exposoma ao conjunto de tudo aquilo a que uma pessoa está exposta ao longo da vida, desde a alimentação e os medicamentos até aos poluentes, ao ruído e ao padrão de sono. A ideia central, desenvolvida por Ugai e colegas numa revisão publicada na Nature Reviews Clinical Oncology em 2022, é que estas exposições não actuam isoladas nem se somam de forma linear.
Hormonas, microbiota intestinal, sistema imunitário e expressão genética influenciam-se mutuamente. Uma alteração da microbiota pode modificar a inflamação, a inflamação pode alterar a expressão de genes, e há compostos químicos que actuam sobre receptores hormonais. Cada geração herda uma versão diferente desta rede, e quem nasceu depois de 1980 herdou uma que nenhuma anterior tinha experimentado.
O momento da exposição pode importar tanto como a dose
Há períodos em que estes sistemas se calibram: a vida intra-uterina, os primeiros anos, e a puberdade. Uma exposição que num adulto tem pouco efeito pode, nessas janelas, alterar de forma duradoura a forma como um sistema funciona.
É uma hipótese com apoio experimental e com plausibilidade biológica, mas convém dizer que não está demonstrada em humanos para a maioria dos compostos em causa. Shiels e colegas documentaram o aumento absoluto de casos em adultos jovens nos Estados Unidos (Cancer Discovery, 2025), sem que exista ainda uma explicação causal consensual.
Uma consequência prática para quem regula
Os ultraprocessados são o exemplo mais visível deste sistema. Em vários países europeus representam cerca de 40% das calorias consumidas (Mertens E et al., European Journal of Nutrition, 2022), e entre os adolescentes britânicos chegam aos 66% (Chang K et al., European Journal of Nutrition, 2024).
A regulação de aditivos e contaminantes é feita substância a substância, com um limite de segurança calculado para cada uma isoladamente. Se o efeito depende da combinação e do momento em que ocorre, a pergunta que se coloca é se faz sentido continuar a regular desta forma. É uma questão política, não científica, e é sobretudo por aí que este conjunto de estudos tem consequências.
Falta a peça portuguesa. Não existe publicado um trabalho equivalente com dados nacionais por coorte de nascimento, e sem ele não é possível saber se a magnitude observada nos Estados Unidos se aplica ao país. O rastreio colorrectal organizado em Portugal continua a começar aos 50 anos.
O QUE FICA
- Quem nasceu entre 1990 e 1994 tem quase três vezes mais risco de cancro colorrectal do que quem nasceu nos anos 50, à mesma idade.
- O padrão repete-se no rim, no endométrio, no pâncreas e no intestino delgado.
- Rastreio, tabaco e genética não explicam o aumento, e a obesidade está associada apenas a uma parte.
- As exposições interagem entre si e podem ter mais efeito em janelas de desenvolvimento como a infância e a puberdade.
- Os dados de coorte de nascimento são norte-americanos e ainda não existe equivalente português.
Fontes
- Gupta S et al. · Clinical Gastroenterology and Hepatology, 2024 · Risco de cancro colorrectal por coorte de nascimento
- Sung H et al. · Lancet Public Health, 2024 · Incidência por coorte de nascimento em 34 cancros
- Ugai T et al. · Nature Reviews Clinical Oncology, 2022 · Cancro de início precoce e exposoma
- Shiels MS et al. · Cancer Discovery, 2025 · Aumento absoluto de casos em adultos jovens
- Mertens E et al. · European Journal of Nutrition, 2022 · Consumo de ultraprocessados em 22 países europeus
- Chang K et al. · European Journal of Nutrition, 2024 · Ultraprocessados em adolescentes no Reino Unido