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Os Açores têm a mortalidade por cancro mais alta do país
A região com a população mais jovem de Portugal é também aquela onde mais se morre de cancro, e a explicação começa antes do diagnóstico

Uma auditoria do Tribunal de Contas concluiu em 2024 que os Açores têm a mortalidade por cancro mais alta do país, tanto em taxa bruta como padronizada pela idade, e que o cancro representa cerca de 27% das mortes na região. O dado é difícil de conciliar com outro: os Açores têm a população mais jovem de Portugal, com uma idade mediana de 43,1 anos contra 47,1 no país.
A combinação é o que torna o caso invulgar. Ter a taxa bruta mais alta numa população jovem já é estranho, porque a taxa bruta favorece regiões envelhecidas. Ter também a taxa padronizada mais alta significa que a diferença se mantém depois de corrigido o efeito da idade.
A sobrevivência está próxima da média nacional
Se a mortalidade fosse explicada por um sistema que trata pior, a sobrevivência aos cinco anos seria das mais baixas do país. Não é. Fica perto da média nacional.
Mortalidade alta com sobrevivência próxima da média aponta para um problema anterior ao diagnóstico, no número de cancros que aparecem e no estádio em que são detectados, mais do que no que acontece depois. Há ainda um agravante em sentido contrário à intuição: a mortalidade nos Açores está a subir desde 2020, num período em que a tendência nacional é de descida.
Uma parte dos casos não chega a ser registada
O mesmo relatório do Tribunal de Contas estimou que o número real de casos na região ultrapassa os mil por ano, enquanto o registo oncológico documenta cerca de metade. Uma cobertura incompleta do registo afecta todas as leituras que dependem da incidência, incluindo comparações regionais e cálculos de sobrevivência.
Os factores de risco estão acima da média nacional
A prevalência de obesidade nos Açores é de 30,4%, segundo dados da Direcção-Geral da Saúde, e o Inquérito Alimentar Nacional encontrou 69,3% de inadequação no consumo de fruta e hortícolas. O Plano Regional para as Doenças Oncológicas identifica o tabaco como um problema de saúde pública da região, embora não exista um valor comparativo directo com o continente que permita quantificar a diferença.
Estes três factores estão associados a parte da incidência de cancros do pulmão, do esófago, do estômago, do fígado e colorrectal, que são os que mais pesam na mortalidade oncológica.
A questão dos rastreios exige cuidado nas comparações
É comum ver comparados números de rastreio entre regiões sem que se compare a mesma coisa. Adesão e cobertura são métricas diferentes, e uma região pode ter boa adesão entre quem é convocado e ainda assim cobrir uma fracção pequena da população elegível.
Há também um limite estrutural. Os três programas de rastreio organizados em Portugal cobrem mama, colo do útero e colorrectal. Para o pulmão e para o pâncreas, que pesam muito na mortalidade açoriana, não existe rastreio populacional em lado nenhum do país. As barreiras geográficas entre ilhas podem ainda condicionar a deslocação para exames e consultas, sobretudo nas ilhas mais pequenas.
A região tem serviço de saúde próprio, com autonomia na organização dos programas, o que significa que as decisões sobre rastreio e sobre registo oncológico se tomam localmente e podem divergir das do continente.
A investigação sobre a Base das Lajes continua sem conclusão
Um levantamento do Laboratório Nacional de Engenharia Civil identificou 41 locais contaminados associados à Base das Lajes, na ilha Terceira, sete deles com risco classificado como cancerígeno. Um estudo epidemiológico previsto para 2018 foi sucessivamente adiado, situação assinalada pelo Tribunal de Contas.
Sem esse estudo não é possível estabelecer qualquer ligação entre a contaminação e os casos de cancro na região, e é importante dizê-lo com clareza. O que se pode afirmar é que a pergunta foi feita há mais de uma década e continua sem resposta, o que é um problema em si mesmo.
O que os dados permitem concluir
Os Açores morrem mais de cancro do que o resto do país apesar de terem a população mais jovem. A sobrevivência normal e a mortalidade alta apontam para um problema que se joga na prevenção e no diagnóstico precoce, e o registo incompleto impede que se meça bem o que está a acontecer. É um conjunto de problemas com soluções conhecidas, e nenhuma delas passa por mais tratamento.
O QUE FICA
- Os Açores têm a mortalidade por cancro mais alta do país e são a região com a população mais jovem.
- A sobrevivência aos cinco anos fica perto da média nacional, o que aponta para um problema anterior ao diagnóstico.
- O Tribunal de Contas estima mais de mil casos por ano na região, contra cerca de metade registados.
- Obesidade em 30,4% e inadequação no consumo de fruta e hortícolas em 69,3% da população.
- O estudo epidemiológico sobre a Base das Lajes, previsto para 2018, continua por fazer.
Fontes
- Tribunal de Contas, Secção Regional dos Açores · Auditoria à Estratégia Regional para as Doenças Oncológicas, 2024
- Registo Oncológico Nacional 2022 · Portugal, 2025
- Direcção-Geral da Saúde e PNPAS · Prevalência de obesidade nos Açores
- Inquérito Alimentar Nacional e de Actividade Física (IAN-AF) · Consumo de fruta e hortícolas
- Laboratório Nacional de Engenharia Civil · Levantamento de locais contaminados na Base das Lajes
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