Cancro em Portugal

Porque é que o Norte de Portugal tem tanto cancro do estômago?

Uma bactéria apanhada na infância, um padrão alimentar antigo e um rastreio que existe noutros países e aqui não

29 de Abril, 2026 6 min de leitura
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Braga regista 40,3 casos de cancro do estômago por 100 000 habitantes e Faro regista 4,0. Dez vezes mais dentro do mesmo país, e Portugal tem a taxa de cancro gástrico mais alta da Europa Ocidental. A hipótese mais estudada para explicar este padrão envolve uma bactéria.

Cerca de 84% dos adultos do Porto são portadores de Helicobacter pylori

O valor vem de um estudo de Bastos e colegas em adultos da cidade do Porto (Helicobacter, 2013). Na Suíça, a prevalência fica abaixo dos 25%, e na Dinamarca abaixo dos 18%.

A transmissão ocorre sobretudo dentro da família e nos primeiros anos de vida, por contacto directo, e associa-se a condições de habitação e saneamento. Isso ajuda a compreender por que motivo a prevalência tende a ser mais baixa nas gerações mais novas dos países que melhoraram essas condições, e por que motivo se espera que a incidência de cancro gástrico continue a descer ao longo das próximas décadas.

Convém precisar o que este número mede. A serologia detecta anticorpos, por isso identifica quem esteve em contacto com a bactéria e não necessariamente quem tem infecção activa nesse momento. Ainda assim, Portugal tem uma das prevalências mais altas da Europa e, ao mesmo tempo, uma das maiores taxas de cancro gástrico do continente.

O que se sabe sobre a acção da bactéria ao longo de décadas

A Agência Internacional de Investigação do Cancro classificou o H. pylori como carcinogéneo de classe I em 1994, a categoria com maior grau de evidência.

A infecção adquire-se habitualmente na infância e pode persistir décadas sem dar sintomas. Mantém uma inflamação crónica da mucosa gástrica que, numa parte das pessoas, evolui por etapas: gastrite atrófica, metaplasia intestinal, displasia e, em alguns casos, cancro. Estima-se que cerca de 90% dos cancros gástricos do tipo não cárdia sejam atribuíveis a esta bactéria. A maioria das pessoas infectadas nunca desenvolve cancro, e é por isso que interessa perceber o que faz a diferença entre umas e outras.

Há ainda um agravante no percurso clínico. Os sintomas iniciais do cancro gástrico são inespecíficos e confundem-se com dispepsia comum, o que contribui para que uma parte considerável dos casos seja detectada já em estádio avançado.

A alimentação associa-se ao risco em quem é portador

O consumo médio de sal em Portugal é de 10,7 gramas por dia, segundo o estudo PHYSA (Polónia J et al., Journal of Hypertension, 2014). A Organização Mundial de Saúde recomenda menos de 5.

Peleteiro e colegas estudaram esta relação num estudo de casos e controlos em hospitais do Norte e encontraram uma probabilidade de cancro gástrico cerca de duas vezes e meia maior nas pessoas com consumo elevado de alimentos salgados (British Journal of Cancer, 2011). Os nitritos usados na conservação de carnes são considerados provavelmente carcinogéneos pela IARC, um grau de evidência abaixo do atribuído ao H. pylori. Enchidos, fumados, presunto e bacalhau reúnem vários destes factores no mesmo padrão alimentar.

Tratar a infecção reduziu o risco em ensaios aleatorizados

Ford e colegas reuniram 11 ensaios clínicos aleatorizados numa meta-análise publicada na Gastroenterology em 2025. A erradicação do H. pylori reduziu o risco de cancro gástrico em 36% em pessoas saudáveis portadoras da bactéria, e em 48% em pessoas que já tinham tido um cancro gástrico precoce. Numa outra meta-análise, Fu e colegas encontraram uma redução de 45% em pessoas com metaplasia intestinal ou displasia (Frontiers in Microbiology, 2025).

Há também evidência populacional. Nas ilhas Matsu, em Taiwan, uma campanha de erradicação em massa foi seguida de uma queda significativa da incidência de cancro gástrico (Chiang TH et al., Gut, 2021). Resultados na mesma direcção vieram de Shandong, na China, e da Coreia do Sul.

Quase toda esta evidência vem de populações asiáticas, com estirpes bacterianas, dietas e taxas de base diferentes das europeias. A transferência para Portugal é plausível, mas não está demonstrada, e é uma limitação que vale a pena ter presente.

Portugal rastreia três cancros e o estômago não é um deles

O país tem programas organizados para o cancro da mama, do colo do útero e colorrectal. Para o estômago não existe rastreio.

Em 2024 arrancou um projecto piloto na ilha Terceira, nos Açores, com testes de H. pylori distribuídos gratuitamente em farmácias a adultos sem sintomas. No continente nada avançou, e o alargamento previsto no Orçamento do Estado para 2024 não se concretizou.

A decisão não é evidente e há argumentos do outro lado, sobretudo a resistência crescente aos antibióticos usados na erradicação e o custo de tratar uma população inteira para prevenir uma minoria de casos. São objecções sérias. Num país com esta prevalência e com a taxa gástrica mais alta da Europa Ocidental, o que falta é a avaliação formal que permita decidir.

Convém distinguir duas coisas que se confundem com frequência. Testar e tratar quem tem sintomas digestivos ou história familiar já é prática corrente e consta das recomendações. Rastrear a população geral sem sintomas é outra decisão, com outra escala e outros custos, e é essa que ainda não foi tomada.

O QUE FICA

  • Cerca de 84% dos adultos do Porto são portadores de H. pylori, contra menos de 18% na Dinamarca.
  • A bactéria está classificada como carcinogéneo de classe I desde 1994 e estima-se que lhe sejam atribuíveis cerca de 90% dos cancros gástricos não cárdia.
  • Portugal consome 10,7 g de sal por dia, mais do dobro do recomendado pela OMS.
  • Erradicar a infecção reduziu o risco de cancro gástrico em 36% numa meta-análise de 11 ensaios aleatorizados.
  • Portugal rastreia mama, colo do útero e colorrectal. Para o estômago existe apenas um piloto na ilha Terceira.

Fontes

  • Bastos J et al. · Helicobacter, 2013 · Prevalência de H. pylori em adultos do Porto
  • Peleteiro B et al. · British Journal of Cancer, 2011 · Sal e risco de cancro gástrico no Norte de Portugal
  • Polónia J et al. · Journal of Hypertension, 2014 · Estudo PHYSA, consumo de sal em Portugal
  • Ford AC et al. · Gastroenterology, 2025 · Meta-análise de erradicação e prevenção do cancro gástrico
  • Fu Q et al. · Frontiers in Microbiology, 2025 · Erradicação em pessoas com metaplasia ou displasia
  • Chiang TH et al. · Gut, 2021 · Erradicação em massa nas ilhas Matsu, Taiwan
  • Pan KF et al. · Gastroenterology, 2024 · Ensaio populacional em Shandong, China
  • Registo Oncológico Nacional 2022 · Portugal, 2025
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