Cancro em Portugal

O cancro tem geografia

O último Registo Oncológico Nacional mostra diferenças entre distritos que a demografia não explica

25 de Abril, 2026 6 min de leitura
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Em 2022 foram diagnosticados 60 954 novos casos de cancro em Portugal, segundo o Registo Oncológico Nacional publicado em Dezembro de 2025. O total nacional diz pouco. As diferenças aparecem quando se olha para a distribuição por distrito.

Vale a pena notar o desfasamento. Os dados são de 2022 e foram publicados no final de 2025, o que é habitual em registos oncológicos, porque cada caso tem de ser notificado, confirmado e validado antes de entrar nas estatísticas. Quando lemos um relatório destes, estamos a olhar para uma fotografia com três anos.

As diferenças entre distritos mantêm-se depois de corrigida a idade

Porto, Braga e Lisboa aparecem no topo da incidência. A Madeira acompanha os grandes centros urbanos e o interior fica bastante abaixo.

A primeira explicação que ocorre a quem olha para estes números é demográfica, porque a idade é o factor de risco mais forte que existe para quase todos os cancros e há regiões muito mais envelhecidas do que outras. Só que as taxas publicadas pelo RON estão padronizadas pela idade, o que quer dizer que a comparação entre distritos já corrige esse efeito. O que fica de pé depois dessa correcção aponta para outros factores, entre eles o que se come, o que se respira, o que se bebe e fuma, e aquilo que os serviços de saúde procuram.

Além disso, cada tipo de cancro tem uma distribuição própria. Três casos merecem uma leitura mais atenta: o estômago no Norte, o pulmão nas cidades e a Madeira nos primeiros lugares da próstata e do pâncreas.

Dez vezes mais cancro do estômago em Braga do que em Faro

Braga regista 40,3 casos de cancro do estômago por 100 000 habitantes. Faro regista 4,0. É a maior diferença interna registada no relatório. Portugal tem também a taxa de cancro gástrico mais alta da Europa Ocidental, e a maior parte dos casos vem do Norte.

É também o padrão com a hipótese mais estudada na literatura, que envolve uma infecção adquirida na infância e que a maioria das pessoas nunca soube que tinha. Dedicámos-lhe um artigo inteiro.

O cancro do pulmão concentra-se nos distritos urbanos

No Porto, a incidência de cancro do pulmão chega aos 62,5 casos por 100 000 habitantes, e as taxas mais baixas ficam no centro do país. Antunes e colegas identificaram quatro zonas de incidência elevada em Portugal, todas urbanas (In Vivo, 2020).

Estes números têm de ser lidos com atenção ao tempo. Entre a exposição ao tabaco e o diagnóstico passam duas a três décadas, por isso a incidência de 2022 reflecte o consumo dos anos 80 e 90 e não o de agora. Forjaz e colegas estimaram que, em 2018, 73% dos casos de cancro do pulmão em Portugal fossem atribuíveis ao tabaco (BMJ Open, 2020). Nas mulheres a incidência continua a subir, acompanhando o aumento do tabagismo feminino nas décadas anteriores.

A Madeira está entre as regiões com maior incidência

A Madeira surge de forma consistente nos primeiros lugares: primeira do país na próstata, primeira no pâncreas e quarta na incidência global. É uma região insular, com população pequena.

A coordenadora do RON associou estes números mais ao estilo de vida e aos factores de risco do que a questões de acessibilidade. Faltam estudos que isolem as causas, e enquanto não existirem esta continua a ser uma hipótese razoável à espera de teste.

Limites dos dados de incidência

Um registo de incidência conta os cancros diagnosticados. Não conta quantas pessoas morreram nem quantas chegaram a tempo ao tratamento, e essas respostas nem sempre acompanham as da incidência. Uma parte da variação geográfica vem da doença e outra parte vem da intensidade com que a procuramos, porque onde se diagnostica mais aparecem mais casos registados, mesmo com doença semelhante. E há o problema do tamanho: em distritos com poucos habitantes, meia dúzia de casos a mais ou a menos chega para mudar a posição na tabela.

O mesmo se aplica quando se compara Portugal com outros países, porque a qualidade e a cobertura dos registos variam, e um país que regista melhor aparece com incidência mais alta sem ter necessariamente mais doença.

Por isso convém dar pouco peso a diferenças pequenas e reter os padrões que se repetem ao longo dos anos e que têm um mecanismo conhecido.

Feitas estas ressalvas, os dados mostram onde o risco se concentra, e essa concentração coincide com regiões onde há mais infecções por tratar, mais consumo de tabaco e de álcool e ausência de rastreios. No caso do estômago está em causa uma infecção que se detecta com um teste e se trata com antibióticos, o que sugere que parte destas diferenças poderá ser evitável através de decisões de saúde pública.

O QUE FICA

  • Em 2022 houve 60 954 novos casos de cancro em Portugal, distribuídos de forma muito desigual pelo país.
  • Cancro do estômago: 40,3 casos por 100 000 habitantes em Braga contra 4,0 em Faro.
  • O cancro do pulmão concentra-se nas cidades e reflecte o tabaco de há vinte ou trinta anos.
  • A Madeira está entre as regiões de maior incidência, primeira do país na próstata e no pâncreas.
  • Em distritos pequenos, diferenças pequenas são instáveis. Contam os padrões que se repetem.

Fontes

  • Registo Oncológico Nacional 2022 · Portugal, publicado em Dezembro de 2025
  • Forjaz G et al. · BMJ Open, 2020 · Tabagismo e cancro do pulmão por região em Portugal
  • Antunes L et al. · In Vivo, 2020 · Clusters espaciais do cancro do pulmão em Portugal
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