have to offer
E se não prescrever exercício em oncologia estiver a sair mais caro?
Uma recidiva evitada conta duas vezes: é uma despesa que o hospital não faz e um período de vida com qualidade que a pessoa mantém.

Em Janeiro, a ESMO passou a recomendar programas estruturados de exercício a quem tem cancro do cólon operado. Este ano saíram as contas, feitas dentro do próprio ensaio.
Ao fim de cinco anos, o conjunto dos cuidados custou menos no grupo que fez exercício. Esse grupo teve também menos recidivas. As duas coisas estão ligadas, e vale a pena perceber como.
De onde vem a poupança
Num percurso oncológico, a rubrica mais cara é a recidiva.
Os autores do CHALLENGE identificaram os geradores de custo em ambos os braços do ensaio: a recidiva, o aparecimento de um segundo tumor, e a terapêutica antineoplásica que se segue a qualquer um deles.
Quem fez o programa recidivou menos. Isso traduz-se em menos linhas de tratamento iniciadas, menos episódios de internamento, e menos pessoas a transitar de um circuito de vigilância para um circuito de tratamento activo.
Uma revisão de 20 ensaios aleatorizados, com 2.635 participantes, publicada no British Journal of Sports Medicine em 2024, mede a parte hospitalar dessa cadeia: menos 1,40 dias de internamento por pessoa e menos 8 pontos percentuais na taxa de admissões.
Uma recidiva evitada conta duas vezes
A recidiva que não acontece é, ao mesmo tempo, uma despesa que o hospital não faz e um período de vida com qualidade que a pessoa mantém.
No CHALLENGE essa dupla contagem tem números. O programa custou 2.917 dólares canadianos por pessoa em três anos. Ao fim de cinco anos, o custo total dos cuidados foi de 31.957 no grupo que fez exercício e de 33.546 no grupo de comparação. O primeiro ganhou 0,10 anos de vida ajustados pela qualidade e 0,05 anos de vida.
Vale a pena olhar para o que isto significa. Há intervenções que poupam dinheiro porque substituem um cuidado caro por um mais barato, ou porque encurtam um tratamento. Aqui não houve nada disso. O grupo que fez exercício recebeu exactamente os mesmos cuidados oncológicos, mais o programa. O que gerou a poupança foi a doença ter voltado menos vezes.
O que trava a entrada nos hospitais?
Mary Kennedy e colegas encontraram 243 barreiras à integração do exercício nos cuidados oncológicos, publicadas no Journal of Cancer Survivorship em 2022. Cerca de 40% estavam ao nível das organizações:
- Falta de espaço físico e de equipamento
- Ausência de profissionais contratados para o fazer
- Ausência de circuito de referenciação definido
- Ausência de código de financiamento
- Falta de acompanhamento entre consultas
Há ainda uma barreira que não se resolve com orçamento. Prescrever exercício a quem está em tratamento oncológico exige formação específica, tanto de quem refere como de quem entrega. O profissional de exercício precisa de saber adaptar a carga aos ciclos de tratamento, à neutropenia, à neuropatia, à fadiga que muda de semana para semana. Sem essa formação, o programa ou não se faz ou faz-se mal.
A isto junta-se o custo de entrega. Uma análise publicada pela ASCO estima entre 50 e 70 horas de tempo de profissionais por participante ao longo dos três anos, trabalho que alguém tem de ter no horário. E num inquérito publicado na Supportive Care in Cancer em 2025, a maioria dos profissionais de oncologia concordava que o exercício é benéfico, enquanto só uma minoria aplicava as recomendações.
E se as contas não dessem?
As contas do CHALLENGE foram feitas para o pagador público canadiano, num tumor, com horizonte de cinco anos. Noutros contextos o resultado já foi diferente: o estudo holandês PACT encontrou poupança no cancro do cólon e nenhuma no cancro da mama, e o PREFERABLE-EFFECT mostrou que o mesmo programa compensa ou não conforme seja entregue em sessões individuais ou em grupos de quatro.
Mesmo assim, o programa continuaria a valer a pena. Um fármaco que reduzisse o risco de recidiva em 28% e aumentasse a sobrevivência livre de doença em mais de seis pontos percentuais aos cinco anos entraria nas normas sem que ninguém lhe exigisse pagar-se a si próprio. Ao exercício pedimos uma prova que não pedimos ao resto da oncologia.
O que isto pede a quem está no terreno
Para quem trabalha em oncologia, o que falta decidir é quem refere, com que critério, e para onde.
Os obstáculos são vários, e um dos menos discutidos tem que ver com a forma como os sistemas de saúde decidem o que pagam. Um sistema sabe avaliar um fármaco: existe um dossier que alguém submete, uma agência que o aprecia segundo critérios publicados, um preço que se negoceia e um código que se atribui no fim, e esse caminho está construído há décadas e percorre-se quase sem pensar.
Para um programa de exercício não existe nada disso. Não há empresa que submeta, não há preço de tabela para negociar, não há rubrica onde lançar a despesa.
Depois há a parte mais difícil de resolver. O custo de um programa destes cai inteiro no orçamento do serviço de oncologia, enquanto a poupança aparece anos mais tarde, dispersa por rubricas que ninguém atribui a quem a gerou, de modo que um director de serviço que decida avançar assume uma despesa visível hoje a troco de um benefício que vai ser contabilizado noutro sítio e creditado a outra pessoa.
O QUE FICA
- No CHALLENGE, o programa custou 2.917 dólares canadianos e os cuidados a cinco anos custaram menos 1.589.
- A poupança veio de menos recidivas, não de substituir ou encurtar tratamentos.
- Cerca de 40% das 243 barreiras identificadas são organizacionais, não clínicas.
- Falta formação em exercício oncológico, de quem refere e de quem entrega.
- O retorno financeiro muda com o tumor, o horizonte e o modelo de supervisão.
- O benefício clínico não depende de nada disso.
Precisa de acompanhamento?
A equipa da AIM ajuda a construir um plano integrativo à sua medida.