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Interromper a hormonoterapia para engravidar depois de um cancro da mama
O ensaio POSITIVE deu a primeira resposta com dados, e a conversa sobre fertilidade continua a não acontecer na maioria dos casos

Durante muito tempo, uma mulher jovem com cancro da mama hormonodependente que quisesse engravidar não tinha resposta com base em dados. A hormonoterapia dura cinco a dez anos, e o receio de que uma interrupção aumentasse o risco de recidiva era razoável mas nunca tinha sido testado.
O problema tem uma dimensão temporal que agrava tudo. Uma mulher diagnosticada aos 34 anos que cumpra a totalidade do tratamento chega ao fim com quase 45, numa altura em que a fertilidade natural já desceu de forma acentuada. A decisão sobre ter filhos deixa de poder ser adiada indefinidamente.
O que o ensaio fez
O POSITIVE acompanhou 518 mulheres que, com acompanhamento médico e após pelo menos 18 meses de tratamento, interromperam temporariamente a hormonoterapia para tentar engravidar, retomando-a depois. Os resultados actualizados foram publicados nos Annals of Oncology em 2026.
Uma proporção elevada das participantes conseguiu engravidar durante o período de pausa, e a maioria retomou depois a hormonoterapia conforme previsto no protocolo. Estes dois dados são tão relevantes como o da recidiva, porque respondem às duas perguntas que a pessoa coloca em consulta: se resulta, e se depois se volta ao tratamento.
A taxa de recidiva no grupo que interrompeu foi comparável à de um grupo de comparação que não interrompeu, no período de seguimento disponível. É uma pausa planeada e vigiada, não um abandono do tratamento, e a distinção é essencial.
Todas as participantes tinham cumprido pelo menos 18 meses de tratamento antes de interromper, mantiveram vigilância durante a pausa e estava previsto o regresso à hormonoterapia. Nada disto se assemelha a suspender medicação por decisão própria.
Os limites do que se pode afirmar
O seguimento ainda é relativamente curto para uma doença que pode recidivar dez ou quinze anos depois. O ensaio não tinha grupo aleatorizado, e as participantes foram seleccionadas segundo critérios clínicos, o que significa que os resultados se aplicam a mulheres com perfil semelhante e não a todas.
O que mudou não foi a certeza. Foi a possibilidade de ter esta conversa com números em cima da mesa, em vez de apenas com receios.
O que existe antes de começar o tratamento
A pausa é uma das opções, e não é a primeira. Antes de iniciar quimioterapia é possível criopreservar ovócitos ou embriões, um procedimento que exige estimulação ovárica e algumas semanas. Durante a quimioterapia, a supressão ovárica com agonistas da hormona libertadora de gonadotrofina é usada com intenção de proteger a função dos ovários.
Todas estas opções dependem de uma decisão tomada antes do primeiro ciclo. É por isso que o momento da conversa importa tanto quanto o seu conteúdo.
Em Portugal, a preservação de fertilidade por motivo oncológico está prevista no enquadramento legal da procriação medicamente assistida, mas a existência de circuito de referenciação e a rapidez de acesso variam entre instituições.
A conversa continua a não acontecer
Uma revisão sistemática de Algave e colegas, publicada na Cancer em 2026, encontrou uma variação enorme na proporção de mulheres jovens com cancro que discutiram fertilidade com a equipa de oncologia: entre 9% e 75%, consoante o estudo e o contexto.
A margem inferior desse intervalo é o dado mais importante do artigo. Preservar fertilidade exige uma decisão tomada antes de começar o tratamento, e quem não teve a conversa perdeu a possibilidade sem sequer saber que existia.
As razões apontadas na literatura são conhecidas e resolúveis: falta de tempo numa consulta em que há muita informação para transmitir, ausência de circuito definido para referenciar, e o pressuposto de que a prioridade é tratar o cancro e o resto se discute depois. O problema é que, para esta decisão em concreto, depois é tarde.
O QUE FICA
- O POSITIVE seguiu 518 mulheres que interromperam a hormonoterapia com acompanhamento médico para tentar engravidar.
- A taxa de recidiva foi comparável à de quem não interrompeu, no seguimento disponível.
- Trata-se de uma pausa planeada e vigiada, nunca de abandonar o tratamento por iniciativa própria.
- O seguimento ainda é curto para uma doença que pode recidivar mais de dez anos depois.
- Entre 9% e 75% das mulheres jovens com cancro discutiram fertilidade com a equipa, consoante o estudo.
Fontes
- Ensaio POSITIVE · Annals of Oncology, 2026 · Resultados actualizados
- Algave A et al. · Cancer, 2026 · Revisão sistemática sobre discussão de fertilidade em oncologia