Investigação

O que o jejum revelou sobre o cancro da mama hormonodependente

O resultado mais útil de um estudo publicado na Nature não é sobre alimentação, é sobre um receptor que pode ser activado por outra via

1 de Julho, 2026 3 min de leitura
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Padrão e colegas publicaram na Nature, em Dezembro de 2025, um trabalho sobre jejum e cancro da mama hormonossensível. A leitura imediata seria sobre alimentação. A leitura mais útil é sobre mecanismo.

Antes disso, importa separar termos que se confundem no debate público. Jejum intermitente e alimentação em janela restrita referem-se a padrões diários. O que estes estudos oncológicos usam são dietas que simulam jejum, com composição definida e ciclos de vários dias, aplicadas dentro de protocolos de investigação.

O que o estudo descreve

Durante períodos de restrição alimentar sobe o cortisol, que activa o receptor dos glucocorticóides nas células tumorais. Essa activação está associada a alterações no comportamento das células que reduzem a sua capacidade de proliferar. A progesterona actua sobre um receptor com efeitos paralelos, o que ajuda a explicar o mecanismo.

O achado com maior consequência é a identificação de um alvo molecular que poderá vir a ser activado por um fármaco, sem que seja preciso restringir a alimentação de ninguém.

O estado da evidência sobre jejum

A maior parte destes resultados vem de modelos animais. Caffa e colegas publicaram em 2020 um trabalho maioritariamente em murganhos, com apenas quatro pessoas na componente clínica. O estudo de 2025 tem sinais correlacionais em humanos, mas não é um ensaio de eficácia.

Há também um resultado negativo relevante. O ensaio DIRECT testou uma dieta que simula jejum durante a quimioterapia no cancro da mama e não mostrou benefício no objectivo principal. A informação disponível não sustenta recomendar jejum como parte do tratamento oncológico.

Porque é que isto exige cuidado redobrado?

Em oncologia, a perda de peso e de massa muscular durante o tratamento associa-se a pior tolerância à terapêutica e a piores resultados. A desnutrição é um problema clínico frequente e sério.

Os protocolos estudados envolvem ciclos de cerca de cinco dias, repetidos a cada três ou quatro semanas, com alimentação normal entre ciclos, e são sempre conduzidos sob supervisão médica dentro de ensaios. Nenhuma pessoa em tratamento deve alterar a alimentação por sua iniciativa a partir de um resultado laboratorial. É pela compreensão do mecanismo que uma observação deste tipo pode vir a dar origem a uma terapêutica.

Se um fármaco conseguir activar a mesma via sem exigir restrição alimentar, o benefício potencial fica disponível também para quem não tem reserva nutricional para tolerar ciclos de jejum, que é precisamente a população em que o risco de o fazer seria maior.

O QUE FICA

  • O jejum activa o receptor dos glucocorticóides nas células tumorais, com efeito sobre a proliferação.
  • O achado mais útil é a identificação de um alvo que pode ser activado por fármaco.
  • A evidência é sobretudo pré-clínica, com poucos participantes humanos.
  • O ensaio DIRECT não mostrou benefício de uma dieta que simula jejum durante a quimioterapia.
  • A perda de massa muscular durante o tratamento associa-se a piores resultados clínicos.

Fontes

  • Padrão M et al. · Nature, 2025 · Jejum, receptor dos glucocorticóides e cancro da mama hormonossensível
  • Caffa I et al. · Nature, 2020 · Jejum periódico e hormonoterapia em modelos pré-clínicos
  • Ensaio DIRECT · Dieta que simula jejum durante quimioterapia no cancro da mama
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